Marrocos, ao sabor do vento

 

Marrocos foi o primeiro país em que estive que me fez sentir que afinal estava era noutro mundo. Marrocos é um ataque aos sentidos, seja pelas suas cores, sons e sabores ou paisagens e língua. A nível geográfico são só 400 quilómetros que nos separam, mas a nível cultural parece que são milhares.

Tal como o nome indica, esta viagem foi ao sabor do vento. Tínhamos um plano mais ou menos delineado na nossa cabeça, mas saímos de Portugal sem nada reservado a não ser um hostel em Chefchouen.

Decidimos apanhar o autocarro Lisboa – Algeciras (viagem demora 11 horas +-) e depois comprar os bilhetes para o ferry em Algeciras. Digamos que Algeciras é uma espécie de Marrocos for dummies. Não há preços nem horários fixos, tudo depende da capacidade de persuasão de cada um e se há um barco prestes a sair ou não. Tivemos sorte. Depois de correr várias bancas encontrámos uma que tinha um autocarro a partir para Tarifa (de onde saía aquele barco) onde ainda cabiam mais umas 5 pessoas. 22€ ida e volta. Done!

Uma hora depois estávamos a embarcar no ferry e duas horas depois, Salam Marrocos! À hora que chegámos era muito duvidoso que conseguíssemos um lugar no autocarro para Chefchaouen, vai daí somos abordados por vários taxistas que prontamente se encarregam de dizer que nos levam até lá (são 2 horas de carro). Depois de meia hora de muita discussão, negociação e certamente palavrões em árabe que nos passaram despercebidos, estávamos os 5 muito aconchegadinhos dentro de um táxi, que nos ia levar até ao nosso destino por cerca de 7€ a cada.

Chefchaouen

Todas as cidades marroquinas têm um género de “portas” onde começa a cidade. É nessas portas que os turistas são deixados ao deus dará e onde os caça-turistas aguardam, qual jaguar a olhar para a sua gazela. Sendo nós ainda novatos em Marrocos, acreditámos que aquele senhor simpático que nos veio ajudar a encontrar o nosso hostel, no meio do emaranhado de ruas que constituem as cidades marroquinas, era simpático só porque sim. Não. Durante os 10 dias que estivemos em Marrocos não encontrámos uma única pessoa que fosse simpática só porque sim. Infelizmente as únicas pessoas que se dão a conhecer aos turistas e viajantes são aquelas que pensam que podem ganhar algo com isso. Tenho imensa pena que seja o que transparece, porque sei que os marroquinos são um povo fantástico (conheço alguns 5 estrelas), mas a falta de controlo e a massificação do turismo têm este efeito perverso.

– Pausa para reflexão filosófica –

Já à porta do hostel pediu-nos 5 euros a cada (olha-me este…) e recebeu 3 euros no total. Depois de vários insultos a nós e às nossas mães lá se foi embora. O resto da nossa estadia em Chefchouen decorreu nas calmas e foi a cidade que mais gostei em Marrocos. Apesar de ser muito pequenina, não há rua ou cantinho que não valha a pena descobrir. Toda a cidade está pintada sob uma panóplia de tons de azul, o que a torna única no mundo.

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No dia seguinte acordamos cedo para dar uma volta pela centro antes de irmos embora. Parecia uma cidade completamente diferente: as lojas ainda estavam todas fechadas, não se via vivalma e o silêncio fazia-se sentir. Depois de um belo pequeno-almoço na praça principal, fomos recolher as bagagens porque tínhamos uma viagem de autocarro até Fez. Só que não. O nosso hostel tinha-nos assegurado que faria a reserva do autocarro (duas vezes), mas como ninguém atendeu quando ligaram, decidiram que se calhar não era preciso e que também não deveria ser necessário avisarem-nos desse facto. É claro que quando chegámos à estação o autocarro já estava cheio e tivemos que encontrar outra solução. Taxiii!

Fez

Desta vez não fomos deixados ao deus dará, mas mais valia. O taxista deixou-nos novamente numa das portas da cidade, mas incumbiu dois rapazes que estavam a passar de nos levar até ao hostel. É claro que não podiam ter ficado mais contentes. Acho que toda a gente em Marrocos tem uma licença de guia turístico falso. No início foram muito simpáticos, “ah Figo is a great player” bla bla bla (ainda vão no Euro 2004) e a dizer que eram guias turísticos e que no dia seguinte ficariam muito contentes de nos levar a ver a cidade por 10 euros a cada (…). Quando perceberam que não estávamos minimamente praí virados decidiram ameaçar-nos a dizer que se iam embora e que íamos ficar perdidos no meio de uma parte muito perigosa de Fez. Ah… lá se foram as expectativas sobre a hospitalidade marroquina. Lá os conseguimos enrolar até ao hostel e demos-lhes 2 ou 3 euros no total e depois de nos chamarem vários nomes lá se foram embora (sinto que estávamos a criar um padrão).

Ultrapassado este pequeno episódio, Fez foi uma agradável surpresa. De todas as paragens que tínhamos planeado fazer, Fez era aquele sítio sobre o qual tinha mais dúvidas e menos expectativas. Mas acabou por ser a cidade com mais para mostrar e onde conseguimos absorver melhor a cultura marroquina.

Começamos a nossa visita a Fez com um feito incrível: não nos perdemos na Medina. Medina é como se chama o centro das cidades marroquinas, onde normalmente se encontra todo o comércio da cidade. A Medina de Fez é a mais famosa de Marrocos pela quantidade exorbitante de ruas e ruelas que tem: 9000. Sim, 9000.

Acho que o que nos entusiasmou mais em Fez foi a sua autenticidade. A Medina não é feita para os turistas verem, é feita para os marroquinos. É lá que todos os dias milhares de “Fezianos” (vá-se lá saber como se chamam as pessoas de Fez) se deslocam para fazer todo o tipo de compras. Desde tachos e panelas, a roupa e comida. Ou uma sangrenta cabeça de borrego ou duas.

E o que é que dá sempre uma ajuda a tornar um sítio/cidade inesquecível? A comidinha, é claro| Fez foi a cidade que nos introduziu ao melhor da gastronomia marroquina. Ao contrário do que estava à espera a comida não é picante (o picante é coisa que não me assiste), simplesmente tem muitas especiarias. Os meus pratos favoritos foram sem dúvida Kefta Tangine e Pastilla.

No nosso segundo dia em Fez, alinhámos numa tour dada por um guia do hostel (por metade do preço sugerido pelos nossos “amigos” do dia anterior) que nos levou aos sítios mais icónicos da cidade e nos ensinou muito sobre a cultura marroquina e religião.  Ele foi a pessoa mais interessante que conhecemos durante a viagem. É incrível vermos e ouvirmos alguém a falar de uma cultura que para nós tem características muito estranhas, mas que para ele é a definição de normalidade.

Aqui estão os melhores momentos das tours (uma com o guia na cidade e outra de carro pelo exterior):

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Ah, e ofereceram 200 euros por mim ao meu namorado da altura… 200 euros! Um ultraje!!

Merzouga e o Sahara

Depois de dois dias em Fez, esperava-nos a melhor parte da viagem: o deserto. Estar no topo da duna mais alta das redondezas, no meio do Sahara, sem avistar vivalma e onde só se ouve o silêncio foi, sem dúvida, uma experiência mágica e difícil de descrever. Mas já lá vamos.

Não sou muito de tours organizadas, mas por preguiça e conveniência decidimos fazer a viagem até ao deserto através do nosso hostel. Custou-nos 100 euros por três dias: transporte Fez – Merzouga; Merzouga Marrakesh, duas noites no deserto, viagens de camelo e refeições no hostel/deserto. É possível que uma viagem igual custo de 150 a 60 euros, dependendo das capacidades de negociação, sendo que nossas não eram grande coisa.

Já no deserto, passámos o resto das horas que faltavam até ao pôr-do-sol a tentar fazer sandboarding e a ver os camelos a passar. Ficámos hospedados num género de um hostel que têm sempre música ao vivo e onde nos ensinaram (ou tentaram) danças típicas.

No dia seguinte, aí sim, tivemos a nossa primeira experiência “desértica” a sério. Pelas 14 horas (hora óptima para se estar a passear no deserto) montámos os camelos e durante uma hora lá fomos nós a “cavalgar” (camelar?) pelo deserto. Andar  de camelo até pode ser muito engraçado, mas dá umas dores no rabo que duram dias! Mal chegámos ao acampamento, fomos todos deitar-nos debaixo das sombras que era grande a probabilidade de evaporarmos se fizéssemos qualquer outra coisa.

Um conselho para quem nunca foi ao deserto e quer ir. Levem água! Muita água! É tipo, um deserto. Não há água, casa de banho nem nada que lembre uma civilização!

Uma hora antes do pôr do sol, já podíamos pôr os pezinhos na areia. Perguntámos aos nossos anfitriões como devíamos ir explorar o deserto e a resposta foi: “descalços”. Seguiram-se garantias de que não havia bicheza que por ali habitasse, e nestes casos o melhor é nem pensar nisso. E lá fomos, Sahara a dentro com um objectivo bem definido: subir à duna mais alta das redondezas. Via-se mesmo que nunca tínhamos “escalado dunas”. Para além de ser uma subida quase vertical, é uma subida em que o chão debaixo dos nossos pés se move em sentido contrário. Perfeito. Demorámos cerca de uma hora a subir uma duna, com paragens a cada minuto para conseguir respirar. Lembro-me de ter feito um vídeo quando cheguei ao topo no qual só se ouvia a minha respiração. Mas valeu cada mini AVC que tivemos pelo caminho.

As fotografias não são as melhores porque a minha máquina tinha sofrido um incidente muito infeliz no dia em que partimos para o deserto, mas já que valem mais do que mil palavras, aqui estão:

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E depois de uma grande subida, há sempre uma grande descida. Lançámo-nos a correr duna abaixo e em 3 minutos tínhamos descido tudo o que nos demorou uma longa hora a conquistar.

A noite foi passada numas tendas tipicamente marroquinas, bem quentinhas porque à noite fica bastante frio e são perfeitas para uma noite romântica debaixo das estrelas. Não vale a pena pensar nas pessoas que já dormiram ali e que aqueles cobertores nunca foram lavados. Há que aproveitar o momento!

E foi assim que terminou a nossa excursão “às arábias”. O dia seguinte levou-nos até à última paragem:

Marrakesh

Marrakesh é a cidade mais badalada de Marrocos. Vem em todos os roteiros turísticos, capas de revistas de viagens e outdoors que publicitam “viagens de sonho”. Contudo, de todos os sítios que visitamos em Marrocos, Marrakesh foi o único que não correspondeu ou superou as minhas expectativas. Não desgostei, mas também não senti aquele “click”.

Vale a pena visitar pela praça Jemaa el-Fnaa que tem uma energia e movimento durante a noite, com dezenas de animadorestatuagens de hena, macacos, cobras, cantores e centenas de barraquinhas de comida e milhares de pessoas.

Em Marrakesh, voltaram a tentar enganar-nos com as direcções, mas depois de uma semana já estávamos bem calejados e fomos por onde queríamos. Quando se tem dúvidas, nada melhor do que perguntar aos polícias ou aos donos dos restaurantes/lojas (porque não podem acompanhar-nos).

Aqui ficam os sítios que mais gostámos de visitar em Marrakesh e que fazem com que a viagem até lá valha a pena:

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Férias a acabar é sinónimo de termos que voltar para Tanger. O percurso é feito numa fatídica viagem de comboio de 12 horas, e como pobretanas que éramos (sou!) tivemos que optar pela opção de fazer 12 horas sentados. Entre muitas mudanças de posição, dores nas costas e passar pelas brasas, lá se fez.

Aaaaaand, it’s done. Os 10 dias em Marrocos passaram a correr e é um destino que aconselho a toda a gente. Convencidos? E de Portugal é tão fácil!

Fica a minha “cábula” para ajudar a planear a viagem:

Viagens de autocarro ida e volta Lisboa – Algeciras: www.alsa.es
Hostel Chefchaouen: Pension Souika, ok – nada de especial. Não confies neles para reservar alguma coisa!
Hostel Fez (onde nos organizaram as tours na cidade e ao deserto): Funky Fes, recomendo! A comida é maravilhosa 🙂
Hostel Marrakech: Kif-Kif Marakech  – 5 euros por noite com pequeno almoço? Siiii!

Podes guardar este itinerário no Pinterest!

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