Irlanda do Norte: Táxis, Game of Thrones e muita rocha

Rivalidades entre cidades ou países sempre existiram e até têm a sua graça. Portugal e Espanha, França e Inglaterra, Estados Unidos e Canadá… existem inúmera e normalmente até resultam numas boas piadas. Mas nada se compara ao ódio que existe entre a Irlanda e a Irlanda do Norte (ok, talvez as Coreias). Em geral, acho que as pessoas dos outros países não têm bem a noção de que este conflito começou há quase 100 anos e que dura até hoje. Eu pelo menos sabia que havia uma música dos U2 chamada Sunday Bloody Sunday e era basicamente isso. Felizmente, o primeiro host da minha vida (e desta viagem), era um irlandês muito aberto e que não tinha problema nenhum em falar sobre este assunto. Mas esta parte veio com toda uma viagem num Black Cab e por isso, já lá chego.

A minha primeira vez no mundo do Couchsurfing

Chegadas a Belfast vindas de Dublin seguimos as instruções do nosso host até à casa dele. Um misto de receio e entusiasmo apoderava-se de nós. Afinal de contas era a primeira vez que íamos dormir na casa de uma pessoa que não conhecíamos de lado nenhum e não sabíamos bem o que havíamos de esperar.

Depois de uma curta viagem de autocarro, estávamos num pequeno bairro de Belfast cheio de casinhas adoráveis, aquelas de tijolo, tradicionalmente inglesas. Tocámos à porta e um Andy sorridente veio-nos receber. As minhas expectativas foram superadas em 1000%! A casa era espectacular, com 3 andares e um quarto só para nós. Para além disso, deu-nos toalhas, acesso a tudo o que estava na cozinha e A CHAVE! Ficámos completamente parvas.

Para além disso, ele era uma pessoa 5 estrelas e tinha parte da família a trabalhar na produção do Game of Thrones – parece que é algo muito comum em Belfast! Em troca, recebeu um abre  caricas com o eléctrico de Lisboa 😀

A terra onde as lendas são feitas

No nosso primeiro dia na Irlanda do Norte tínhamos uma viagem marcada à maior atracção turística de toda a Irlanda – The Giant’s Causeway. Acho que já disse nalgum lado que não sou grande fã de tours, mas o preço era tão baixo (20€ por um dia inteiro) e já que não íamos alugar um carro num país onde se conduz ao contrário, era a nossa única opção.

Tivemos imensa sorte porque fomos num grupo muito pequeno (8 pessoas) e tínhamos um guia que não se calava, ou seja, contou-nos tudo o que havia para contar sobre a Irlanda do Norte e, mais concretamente, sobre as lendas que fazem parte daquela região. Infelizmente, o sotaque dele era tão cerrado que só percebi prai 70% do que ele dizia.

A primeira paragem a tour era relacionada com o Game of Thrones (claro), numa estrada chamada “The Dark Hedges”. Os Faias plantados de ambos os lados da estrada cruzam-se no topo, criando um efeito de estrada fechada. Apresento-vos a Kingsroad:

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Depois, seguiu-se a parte mais intrépida da coisa: atravessar uma ponte de corda que liga uma falésia a uma ilha – a Carrick-a-Rede Rope Bridge.

A ilha é mínima, mas tem uma perspectiva brutal sob os rochedos e o mar. A parte mais divertida é sem dúvida a de passar pela ponte de madeira e corda. Aquilo abana por todos os lados, mas é fantástico, ver a praia a e as rochas a 30 metros dos nossos pés.

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E seguia-se o ponto mais esperado da viagem: a Giant’s Causeway. A Calçada dos Gigantes é uma formação rochosa única no mundo, sendo o resultado de 60 milhões de anos de actividade vulcânica com mais de 40 mil colunas de basalto encaixadas umas nas outras.

Mas como estamos na Irlanda, nada é assim tão simples. Existe toda uma lenda à volta desta “calçada”. Fica aqui um excerto e um link para a história completa para os mais curiosos:

“According to legend, the columns are the remains of a causeway built by a giant. The story goes that the Irish giant Fionn mac Cumhaill (Finn MacCool), from the Fenian Cycle of Gaelic mythology, was challenged to a fight by the Scottish giant Benandonner.”

O único ponto negativo desta visita foi o pouco tempo que tivemos para explorar a Giant’s Causeway, porque merece um dia inteiro só para ela. As caminhadas são intermináveis e há muito para explorar. As rochas, naturalmente hexagonais, são o modelo perfeito para fotografias dignas do melhor dos Instagrams. E quando damos por nós estamos a saltar de pedra em pedra qual jogo da macaca pré-histórico.

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100 anos de história numa viagem de Taxi (preto)

Regressando a Belfast depois de um intenso dia de caminhadas e 50 mil lendas irlandesas, ainda fomos explorar o centro de Belfast. Não sei se era por ser sábado à tarde, mas as ruas estavam desertas e parecia que tínhamos a cidade só para nós. O centro em si não é muito grande, mas é giro pela sua arquitectura e ligação ao mar. Afinal, foi ali que nasceu o Titanic.

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Já sabíamos que uma das coisas mais interessantes em Belfast são os murais políticos, por isso tentámos ir ao encontro de alguns que deveriam ser perto do centro da cidade. Falhámos redondamente.

Quando voltámos para casa decidimos pesquisar qual a melhor maneira de ver os murais e todas as dicas iam dar às Black Cabs tours. A informação que há é um bocado dispersa e confusa, mas uma Black Cab tour consiste numa viagem guiada a alguns murais de Belfast. O caminho é traçado pelos “taxistas” que ao mesmo tempo explicam a história de Belfast e o porquê da divisão entre protestantes e católicos. Como éramos só duas e ia ser super caro pedirmos um táxi para nós, decidimos que na manhã seguinte iriamos ao Posto de Turismo para nos mostrarem as várias opções de empresas de táxis e na esperança de encontrarmos outros viajantes com quem dividir a viagem.

Melhor decisão de sempre. Escolhemos a viagem mais barata e em 10 minutos conseguimos mais três pessoas para dividir os custos.

Rápida introdução à história da Irlanda:

Durante uma hora viajámos pelo passado e presente da Irlanda do Norte. Nestas tours nunca se sabe que lado da história se vai ouvir. O guia pode ser Católico ou Protestante (Nacionalista ou Unionista) e claro que cada guia defende o seu lado. Felizmente calhou-nos um Irlandês, o que pelos chavões significa católico e nacionalista, que é o lado com quem mais simpatizo. No início, ele deixou logo claro que esta “guerra” nada tem a ver com religião. As palavras “católicos” e “protestantes” são apenas indicativas do lado em que se está. Na realidade, significa se a pessoa quer que Irlanda do Norte seja parte da Grã-Bretanha ou parte da República da Irlanda.

A viagem começou por uma parte de Belfast onde se consegue ver as fronteiras entre a área protestante e católica que muitas vezes incluem arames farpados. Ficámos a saber que o hotel mais bombardeado do mundo é em Belfast e que, infelizmente, quase toda a gente conhece uma pessoa que morreu ou ficou ferida por causa deste conflito.

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A história e o conflito são demasiado extensos para explicar, mas o vídeo em cima ajuda. Durante a visita vimos dezenas de murais. A maior parte reflecte temas controversos, causas humanitárias e tributos a figuras que morreram por uma causa. Depois existem umas coisas mais mesquinhas como no lado irlandês haver um mural de apoio a Gaza/Palestinianos e outro no lado protestante a apoiar o estado israelita. Ainda existem portões que dividem os dois lados e se fecham todas as noites. O lado protestante tem uma quantidade assustadora de rainhas Elizabete por toda a parte.

E foi assim que acabou a nossa viagem pela Irlanda do Norte. Com muita história e bolos comprados com as últimas libras que tínhamos 🙂

Vídeo da viagem:

Próxima paragem: Galway!

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