Então como é que foi viver em Istambul?

Perguntou toda a gente com quem me encontrei no último ano. E porque descrever o ano mais louco da minha vida num minuto dá muito trabalho, a resposta acaba sempre por ser “foi giro, foi diferente”. Portanto, como forma de aumentar a produtividade e de dar uma resposta sincera sobre o que é um ano a viver e a trabalhar em Istambul, ficam aqui a minha experiência:

A mudança para Istambul foi uma montanha russa de emoções. Vivi dos melhores e dos piores dias da minha vida. Se por um lado parecia que tinha conquistado a minha independência numa cidade estrangeira, com uma língua imperceptível e uma cultura diferente, também tinha a noção que essa autonomia era frágil e que muitas vezes ainda dependia financeira e emocionalmente de várias pessoas.

Afinal de contas, era a primeira vez que estava a viver sozinha e a trabalhar ao mesmo tempo. Enquanto a adaptação a uma cidade quando de faz Erasmus é quase instantânea pelas pessoas que se conhece e tempo que se tem disponível para descobrir e explorar a cidade, quando se trabalha, o mundo está um bocadinho confinado aos colegas e ao caminho casa-trabalho. O dia-a-dia seguia mais ou menos nestes moldes:

O trabalho

A parte mais estranha do trabalho era o caminho até lá. Todos os dias ia de autocarro e eléctrico. Eu e os homens… Porque basicamente não há mulheres a trabalhar! Acho que houve alturas em que cheguei a ser a única no autocarro. Tirando isso, os ocasionais olhares e um gajo a seguir-me durante três dias, corria tudo bem 😀

O ambiente de trabalho era mais ou menos como cá, mas um bocado mais lento e com pessoal mais descontraído. Não há nada como “yavas, yavas” (lentamente, lentamente). Para além disso, o fogão estava sempre ligado porque tem que haver sempre chá pronto, uma “abla” (“irmã”) cozinhava todos os dias o nosso almoço, todas as pessoas que vinham a reuniões traziam ou chocolates e/ou baklava e ao fim do dia chamava-se o vendedor de simit pela janela.

Profissionalmente, percebi que era um sítio no qual nunca poderia crescer por causa da barreira linguística, mas trataram-me como se fosse parte da família, e ficarei para sempre grata por isso. Por isso e pelas viagens que me ofereceram!

O que mais gostava era de quando saía, ver a Hagia Sophia banhada pelo pôr-do-sol. Mágico!

Ps: na minha entrevista de emprego também me perguntaram se a minha relação com o meu namorado era séria (???)

 

A língua

Oh boy… a razão que tornou a minha adaptação tão difícil. Para além do facto de ser uma língua que em nada se assemelha às latinas e, consequentemente, difícil de aprender também não ajuda nada o facto de quase ninguém falar inglês. De qualquer forma foi o motivo por que me inscrevi em aulas e onde fiz as minhas melhores amigas. Passados 3 meses, já consegui dizer algumas coisas básicas, safar-me em restaurantes e supermercados e perceber os assuntos à minha volta. Agora, estou de volta ao merhaba, nasilsin e teşekkürler!

 

A sociedade

Tal como escrevi neste texto, Istambul é indefinível e os turcos também. Quase não vale a pena descrevê-los, porque há pessoas e personalidades tão diferentes que encontrar um estereótipo turco não é fácil, ou pelo menos, justo. O que posso dizer, como também já disse aqui, é que eles adoram partilhar e fazem-no de boa vontade. São muito mais descontraídos com o dinheiro do que nós, europeus, e não têm problemas em dizer o que ganham (ou de perguntar quanto ganhas) e de admitir que têm problemas financeiros no fim do mês (quem diria, com a falta de jeitinho que têm para poupar… 🙂 ). Comparando com Portugal? Bem, têm muito mais respeito pelos mais velhos e dedicação à família. Importam-se muito com o que os outros pensam ou dizem. Achei as raparigas da minha idade ainda mais preocupadas com a beleza e com a magreza e muitas ainda não acreditam que são elas que têm que traçar o seu futuro e não os outros. Pelo que percebi, as sogras turcas são extremamente odiadas :p Quanto aos homens  primam pelo ciúme e possessividade. Acham (ainda mais do que cá) que é socialmente aceitável um homem andar com várias mulheres – até ao mesmo tempo – mas que a mulher que não é virgem até ao casamento não vale a pena.

 

A cidade

Como destino turístico, Istambul é das cidades mais interessantes do mundo para visitar.  Já para viver, pode tornar-se um bocado caótica. Os transportes funcionam muito bem (ouviste Carris e Metro???!) mas geri-los numa cidade com 18 milhões não pode ser fácil. Quando se pensa “este fim-de-semana vamos a um parque para descansar” ou “apetece-me ir às compras em Taksim”, podes ter a certeza que esse pensamento não foi só teu e para onde quer que vás vais ter sempre muita companhia.

Não é uma cidade de fácil adaptação, mas com o passar do tempo acho que cada vez se gosta mais dela. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” podia ter sido inventado para descrever Istambul.

 

O futuro

Escrevo este “capítulo” com algum pesar. Vivi na Turquia até Junho de 2015, e foi a partir desse verão que as coisas começaram a derrapar e a perder o controlo. Entre vários ataques terroristas em sítios onde eu passava todos os dias a uma tentativa “falhada” de golpe de estado, agora as pessoas têm medo de viver e visitar Istambul. Posso dizer que enquanto lá vivi, nunca tive medo. Agora, provavelmente teria, mas não é isso que me vai dissuadir de lá voltar e rever esta cidade que adoro.

Os tempos não são fáceis e o futuro parece-me incerto. Debaixo da alçada de Erdogan, que cada vez parece está mais forte, valores como a liberdade e igualdade estão a ser flagelados diariamente. Os meus sentimentos sobre este assunto dariam (ou vão dar) todo um outro post, por isso não me vou alongar.

Para aqueles que estão na dúvida se hão-de ir a Istambul ou não, eu diria “Sim, vão”. É uma cidade imperdível, com imenso para oferecer e que por interesses capitalistas perde cada vez mais a sua identidade à medida que bairros históricos são arrasados para construir novos arranha-céus.

O Ataturk a esta hora deve andar às voltas no caixão. Pode ser que um dia volte para revolucionar isto tudo outra vez 😉

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