A metamorfose de Susana Amira

Susana Amira ou, para os menos versados em Árabe, Susana Princesa, foi durante vários anos minha professora de Dança Oriental. É com algum pesar que uso a expressão “foi” e não “é”, mas esta vida de Mudanças Constantes não me deixa parar quieta!

Para além de uma grande professora e talentosa bailarina, a Susana é uma amiga e alguém que admiro muito. Há 10 anos deixou para trás uma vida estável e confortável no mundo das economias para se dedicar a 120% à Dança Oriental. Como todo o artista em Portugal, a vida não tem sido um conto de fadas, mas a sua paixão e entrega a esta arte tornam-na uma das melhores dançarinas de dança oriental do país.

Aprendi muito com a Susana. E não falo só dos shimmys, círculos africanos ou cambrets. Aprendi sobre o Médio Oriente, sobre a cultura e língua Árabe, a história da dança Oriental e a sua evolução. Temos discussões infinitas sobre os conflitos na Síria, refugiados e o papel da mulher noutras sociedades. Muitas vezes até horas em que já ninguém pensa, só dorme.

Senhores e senhoras, meninos e meninas, preparem-se para conhecer: Susana Amira!

Como é que foi a reacção dos teus amigos e familiares mais próximos quando lhes contaste que ias trocar as folhas de cálculo do Excel pelos lenços de moedas e as asas de Ísis?

A minha família e amigos mais próximos assistiram, por um lado, à minha evolução na dança, e, por outro, à minha crescente insatisfação enquanto economista. Fui aluna de dança muito tempo e só em 2008 comecei a pensar que a dança poderia ser o meu caminho. Em 2010, comecei a dar aulas e, em 2011, tornou-se claro que me queria dedicar inteiramente à dança oriental. Foi nesse ano que larguei tudo para abraçar a minha paixão.

Quando comuniquei a minha decisão, a maior parte das pessoas disse-me: “estás a trocar o certo pelo incerto”, “não faças isso”. De facto, eu tinha uma vida muito confortável do ponto de vista financeiro, mas tinha a certeza de que não queria continuar a ser economista, uma vez que tinha encontrado a minha vocação, a Dança Oriental.

Hoje em dia conto com o apoio de todos, embora acredite que muitos alimentam um secreto desejo de que eu volte à Economia, atendendo à incerteza profissional que existe quando se trabalha na área artística.

Sei que tens uma grande paixão pelo Médio Oriente… Porque é que esta cultura te diz tanto e o que é que achas que podíamos aprender com ela?

Sempre me senti fascinada pelo Médio-Oriente e Norte de África. Lembro-me de dizer, desde pequena, que queria conhecer Marrocos e o Egipto. É um fascínio que não sei bem de onde vem. Sinto um apelo pela música, poesia, aromas, sabores e paisagens. As pessoas também me encantam com uma hospitalidade fora de série, um forte sentido de amizade e respeito pela família.

Das viagens que fiz por Marrocos, Tunísia, Egipto, Jordânia, das amizades que tenho com árabes que residem em Portugal e pelo que estudei da cultura árabe, no Curso de Cultura e Língua Árabe na Faculdade de Ciências Humanas em Lisboa, reforcei ainda mais a minha paixão.

Claro que também tive oportunidade de observar muitas questões que me desagradaram. No entanto, penso que devemos valorizar as coisas boas de todas as culturas e aprender com as mesmas; ficamos todos mais ricos se construirmos pontes e não muros entre nós.

Falando de culturas… Conta-me mais sobre a tua primeira viagem ao Egipto. Comidas, língua, dança, cultura, etc. O que é que te fascinou mais e menos?

A minha primeira viagem ao Egipto foi em 2004, e foi um sonho realizado. Fiz um cruzeiro no Nilo, visitei o Vale dos Reis (Túmulo do Tutankamon), o Túmulo de Hatshepsut, Luxor, Asuão, Abu Simbel e Hurgada (Mar Vermelho). No Cairo, visitei as Pirâmides, o Museu do Cairo, onde vi Múmias, visitei o Khan el Khalili, um imenso bazar no coração do Cairo. Foi tudo fascinante e uma novidade.

Vi Tanoura, uma dança rodopiante associada ao Sufismo, o ramo místico do Islão, praticada também por não religiosos. Adorei a comida, sobretudo o Baba ghanoush, uma salada feita de puré de beringela assada ou grelhada, tahine e sumo de limão. Senti-me em casa. O que menos me fascinou foi a poluição do Cairo.

Em 2010, voltei para ter aulas de dança oriental no Cairo. Tive a oportunidade de viver a cidade mais intensamente e de ver dança oriental em vários locais, desde os mais sofisticados aos mais populares. Foi uma experiência incrível.

A Dança Oriental, ou mais comummente apelidada Dança do Ventre, está associada, no mundo ocidental, a alguns estereótipos menos agradáveis. Porque é que isso aconteceu e o que é que originou na verdade esta dança?

Alguns movimentos da dança oriental surgem em estatuetas com mais de 6000 anos de história. A dança oriental é um legado de uma evolução de várias danças do mundo. A dança resulta de rituais de fertilidade e danças sagradas, de movimentos que recriam o movimento dos astros e os movimentos naturais de preparação do parto.

A dança oriental funde muitos elementos de outras danças, e uma das influências determinantes foi a migração dos ciganos do Rajastão da Índia, que se estabeleceram no Egipto. “Dança oriental” é a designação que se dá a esta dança a nível profissional, tal como a conhecemos hoje em dia. É uma dança milenar que sofreu evoluções ao longo tempo, integrando novas tendências.

Contudo, o Ocidente conhece esta dança como “dança do ventre”, devido ao Orientalismo. Aquando da Campanha do Egipto por Napoleão, a partir de 1798, os artistas integrantes da Comissão das Ciências e das Artes representaram a realidade do Egipto consoante os seus condicionalismos culturais, muitas vezes baseando os seus trabalhos em imaginários e fantasias que não correspondiam ao quotidiano da sociedade de então.

A representação da dança tornou-se fantasiosa, misturando haréns sumptuosos e odaliscas sedutoras. Foi criado um estereótipo da mulher do Oriente perpetuado pelas Feiras Universais e pelos filmes de Hollywood, recheados de clichés e distorção da realidade. Por exemplo, o harém era a parte da casa onde residiam as mulheres que viviam na dependência de um chefe de família, mulheres de todas as idades unidas por laços de parentesco. Entre elas, dançar era algo normal e profundamente enraizado, no entanto, não tinha nada a ver com o ambiente erótico das 1001 noites.

Historicamente foi sendo criada uma fantasia do imaginário colectivo sobre a dança do ventre, sem equivalente noutras danças.

Todas as danças são expressões de sentimentos, expressões artísticas, que exigem estudo e dedicação, e a dança oriental não é excepção.

Penso que a dança oriental também é alvo de discriminação por ser sobretudo feminina e dada a condição das mulheres no mundo actual. A dança oriental é um instrumento poderoso de libertação, dá-nos liberdade de sentir, de nos exprimirmos, de desbloquear uma energia estagnada de sermos inteiras, de sermos Mulheres.

Tens alunas (e até alunos) de todas as idades, tamanhos e feitios. Quais é que são os maiores benefícios da dança oriental e quais são as maiores mudanças que vês ao longo do tempo nas tuas alunas?

Tenho alunas dos 6 aos 70 anos de idade. É maravilhoso assistir às mudanças que ocorrem dentro da sala de aula. A prática desta dança proporciona benefícios à saúde, tanto a nível físico como emocional. Do ponto de vista físico, destaco melhorias na flexibilidade, postura, força, memória, ajuda na preparação para o parto, recuperação do tónus muscular pós-parto; combate problemas relacionados com a TPM, cólicas, obstipação e dores renais.

Do ponto de vista emocional, realço melhorias na auto-estima e confiança. A dança oriental é uma redescoberta do corpo e a descoberta de uma outra perspectiva da feminilidade e da sensibilidade.

Muitas mulheres começam a dançar porque elas próprias têm preconceitos e consideram a dança oriental exótica. O interessante e paradoxal é que através da dança se vão encontrando a si mesmas. A dança é um todo, um universo pleno de variedade. Abre a porta à autodescoberta, ao mundo íntimo e ao sonho.

E porque dança oriental não é só “dar à anca” podes dar-nos um cheirinho sobre os vários tipos de música, dança e acessórios que fazem parte desta arte? Com links para o YouTube e tudo!

A dança oriental é riquíssima, cada país tem as suas danças tradicionais. Eu sou apaixonada, sobretudo, pelas danças do Egipto, no entanto, também integro nas aulas elementos de fantasia que foram sendo introduzidos pelo mundo do espectáculo no ocidente.

Graças a um grande bailarino e coreógrafo egípcio, Mahmoud Reda, hoje em dia podemos apreciar várias danças típicas do Egipto estudadas por ele e adaptadas ao espectáculo de palco.

Deixo-vos alguns links para que possam ver alguns estilos de música e dança.

Dança com Espada 

Saidi (folclore egípcio)

Baladi 

Romantic Oriental (estilo moderno de dança) 

Dança com Asas de Isis (estava algures neste molhinho!)

Mejance 

Dança com Véus (estou neste!!! 😀 )

Dança com Leques de Seda 

Dança de fusão 

E por fim…

Uma música: Enta Omri, Um Koulthum

A música “És a minha vida” foi das primeiras músicas que ouvi em árabe, da musa egípcia, famosa em todo o mundo, uma “Amália Rodrigues” egípcia.

Um livro:

Os Filhos da Meia-Noite, Salman Rushdie

Leão, o Africano, Amin Maalouf

Para onde vão os guarda-chuvas, Afonso Cruz

Um acessório: Espada

Um dançarino/dançarina: Dina, bailarina egípcia de dança oriental e Mikhail Nikolaévich Baryshnikov, bailarino russo e Akram Hossain Khan, bailarino inglês com ascendência do Bangladesh.

Uma cidade: Cairo

Um país: Marrocos/Egipto/Portugal – São os países do meu coração.

Um prato: Couscous de legumes marroquino

Uma frase: “A Dança é a linguagem escondida da Alma.” Martha Graham

Saudades disto! ❤ Beijinho enorme Susana e muito obrigada pela entrevista!

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