Banaue – Batad: Três dias de trekking pelos arrozais património da UNESCO

“Estou em Batad, no norte das Filipinas, prestes a enfrentar o último dos meus três dias de caminhada pelos arrozais desta zona. Com medo de me estar a tornar repetitiva, permitam-me que o faça: estes dias trouxeram-me paisagens inesquecíveis. Mas também muito mais do que isso. Durante três dias passei por aldeias Filipinas que são exclusivamente acessíveis por trilhos juntos aos arrozais e pela floresta. Muitos deles instáveis e efémeros, destruídos pelas monções típicas da região e reconstruídos pelos seus habitantes numa tentativa de protegerem o único “pão” (arroz) que têm para se alimentar. Não há carros, internet, ou qualquer outra comodidade que tão facilmente damos por garantida. Essas, são para os poucos turistas que aqui passam e se aventuram numa odisseia de suor, calor, lama, mas que acima de tudo têm o absoluto privilégio de poder testemunhar como (sobre)vivem estes povos há milhares de anos.”

5:40am, 5 de Junho, 2017

Mas começando pelo início!

Normalmente, a maioria das pessoas que visita Banaue fica só um dia: contrata um guia, vai até aos arrozais de Batad e às Tappiya Falls e pronto. Mas enquanto me passeava pela blogosfera à procura de coisas para fazer nas Filipinas, encontrei um post que falava sobre a possibilidade de fazer uma caminhada de três dias com um guia que te leva por diversas aldeias paradas no tempo e por trilhos com paisagens inesquecíveis. Fiquei logo com a pulga atrás da orelha e pedi o contacto do guia: o John. Rapidamente me enviou o plano da caminhada, o preço e as condições, enquanto me chamava “ma’am”. Eu aceitei e combinámos que dia 3 de Junho a aventura começava e que ele tinha que me chamar Inês!

Depois de uma viagem de autocarro de 9 horas – que começou em Manila com um grupo que conheci no hostel e uma garrafa de rum – cheguei a Banaue. À saída do autocarro, consegui escapar-me aos 20 guias turísticos que saltam para cima dos potenciais clientes, e encontrar o John.

Rapidamente arrumei uma pequena mochila com roupa para dois dias, comprámos almoço e arrumámo-nos num tuk tuk que nos levou até ao início do caminho. Durante cerca de 3 horas andámos pelas montanhas, conversámos sobre as Filipinas, tradições, crenças e comida. Nas Filipinas eles não estão particularmente familiarizados com o conceito “Portugal”, por isso depois da terceira ou quarta tentativa aceitei que sou de Espanha.

A primeira paragem foi na Vila de Pula onde me sentei à beira rio a comer, com as mãos, o meu peixe frito e arroz vermelho. Nuvens cinzentas aproximavam-se como quem diz “vem aí diluvio”. Dito e feito! Mesmo assim fizemo-nos à estrada e em meio minuto parecia um pinto! Caminhámos meia hora debaixo de chuva torrencial, de pouco servia esperar, porque os caminhos ficam mais instáveis com a chuva e pode até haver derrocadas.

Molhadinha!


Felizmente escapámos aos potenciais deslizamentos de terra e como vertigens é algo que me passa um pouco ao lado não foi nada difícil chegar a Cambulo. Nunca fiquei tão feliz por ver uma cama! Com uma noite passada num autocarro cheio e 16 km de caminhada em cima, aterrei e só acordei quando me vieram chamar para jantar. E comi o melhor caril da minha vida!

Sem livros (erro fatal da minha parte), internet, televisão ou qualquer outra forma de entretenimento, não me restava muito a fazer para além de dormir. De manhã tinha à minha espera uma panqueca gigante que me deu forças para o que estava para vir! A senhora que gere a Hiker’s Homestay é, para além de uma grande cozinheira, uma pessoa mega fofinha! Tem cerca de 1 metro e 45, passou muitos anos da vida dela como empregada doméstica em Israel e agora voltou às origens e abriu um pequeno bed and breakfast. Gostei imenso de a conhecer, fez-me lembrar a minha avó 🙂

Apesar de termos menos quilómetros para fazer, o dia estava super quente e a primeira hora foi dolorosa, com a água a sair do nosso corpo a um ritmo mais rápido do que entrava. Mas quando finalmente chegámos a Batad, o suor e a lama ficaram para trás e só já só interessavam os complexos terraços de arroz que emolduram a aldeia de Batad e que são fruto de uma passagem de conhecimento de geração em geração que já dura há mais de 2000 anos.

Nada sujos!

Por esta altura estava completamente desesperada por um banho e antes de fazermos a última parte da caminhada do dia (a descida vertiginosa até às Tappiya Falls) fomos pousar as coisas na Pensão Batad (haja nomes originais) e trocar as roupas encharcadas por algo mais digno.

Descansados e hidratados voltámos a sair, desta vez com as cascatas como destino. As Tappiya Falls são bastante perto de Batad, mas para lá chegar há que completar um percurso sempre a descer a pique que vai pôr os teus joelhos a gritar “PORQUÊ?!!!!”. Assim que chegámos, fomos até umas rochas no meio da água (já tinha desistido há muito de tentar não molhar os meus ténis) e almoçámos enquanto os salpicos de água nos refrescavam. Os meus standards de bons sítios para almoçar nunca mais vão ser os mesmos.

E como o mundo (ou Batad) é pequeno, enquanto almoçava pacificamente encontrei o pessoal do hostel de Manila ali! Tinham decidido fazer a tour só de um dia 😀 Eventualmente lá decidimos enfrentar a subida, pensamento que me estava a atormentar desde a descida. Surpreendentemente não foi assim tão mau! Claro que tive que fazer algumas paragens, mas nada de especial.

E tinha chegado novamente a hora do “quem me dera ter um livro”. Consegui uma caneta e folha para escrever o meu diário, vi um episódio do “The Keepers” que tinha no telemóvel, pensei na vida, vi trovoada, observei pirilampos e às 9 fui dormir!

E não é que chegámos ao último dia? Comparando com os outros, este foi o dia menos desafiante uma vez que só caminhámos duas ou três horas de manhã e depois fomos até uma outra cascata onde se podia tomar banho. Adorei, porque os locais usam este sítio como banheira e ver a felicidade dos miúdos e graúdos enquanto nadavam, se lavavam e saltavam para a água foi delicioso.



Tudo acabou no Pink Banaue, voltei a ter acesso ao mundo e tive o prazer de testemunhar uma tempestade monumental.

E foi assim que chegou ao fim a minha aventura pelos arrozais mais famosos das Filipinas. Uma paragem obrigatória numa visita a este país.

Dicas rápidas:

Dificuldade: Depois de fazer caminhadas quase todos os dias na Nova Zelândia não achei estes três dias demasiado difíceis. Contudo, deves ter em consideração o calor e o facto de passares muito tempo a caminhar por muros estreitos com uma possível queda de três ou quatro metros, por isso se tens vertigens isso pode ser uma desvantagem. Mais importante: calçado confortável que possas estragar.

Guia: O meu guia chama-se John Bodah e só posso recomendá-lo. Um excelente profissional, capaz de te ajudar sempre que precisares. Adapta-se ao teu ritmo e sabe os caminhos mais seguros, o que é a parte mais importante. Ele tratou de tudo, só tive que me preocupar em aparecer e em usar as perninhas! Este é o Facebook dele facebook.com/john.bodah/ e o preço para três dias, duas noites, taxa turística de Banaue e transporte em Banaue foi de 5700 pesos. Claro que se fores com outra(s) pessoas consegues baixar muito o custo unitário. Também podes escolher ir só durante um ou dois dias. Telefone: +63 926 892 0091

Melhor altura: Eu fui em Junho e os campos estavam perfeitos. Pelos vistos a melhor altura para os ver verdinhos é entre Março e Junho. Normalmente os dias estavam muito soalheiros de manhã e à tarde/início da noite era altura da chuva.

Dinheiro: Todos os pagamentos nas Filipinas são feitos em dinheiro e caixas multibanco são uma raridade. Existe uma em Banaue, mas aconselhava a levares contigo o suficiente.

Transporte: A melhor maneira de ir de Manila para Banaue é o autocarro. A Ohayami Trans tem autocarros diários directos. A viagem dura cerca de 9 horas e custa 490 pesos.

Alojamento: Em Banaue recomendo o Pink Banaue, é óptimo para conhecer outros viajantes. Nas vilas por onde passei na caminhada também fiquei em sítios muito jeitosos, em quartos privados, o que acho um luxo. Em geral luxo é palavra que não existe, mas conforto sim! Banaue em si, como cidade, não tem nada para ver.

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